Vencedor da fase de qualificação do McLaren Shadow Project no simulador rFactor 2, o português Nuno Pinto ganhou o acesso à Final deste evento, que já se está a realizar em Inglaterra e que tem uma duração total de uma semana. Apesar das nossas tentativas para que o Nuno nos falasse um pouco do evento em si, o jovem de natural de Viana do Castelo ‘fechou-se em copas’, respeitando o acordo de confidencialidade pedido pela organização, para que a prova tenha todos os ingredientes da sua génese garantidos. No entanto, é do conhecimento geral que o vencedor desta fase decisiva será piloto da marca britânica, provavelmente num simulador ou numa competição virtual em que a McLaren venha a estar envolvida. Sobre isso, se tal for possível, cá estaremos daqui a uns dias, para falar o que entretanto conseguirmos saber.

Para já, a nossa principal preocupação foi mesmo falar com este português, mundialmente conhecido entre a enorme e sempre crescente comunidade virtual. Piloto extremamente rápido, o que já lhe valeu o epíteto de ‘alien’, o Nuno Pinto é também alguém sempre disponível e simpático com a comunidade em geral, pronto para uma palavra de incentivo e sobretudo muito humilde. Falámos com ele para ter essencialmente uma opinião sobre o mundo atual da simulação. Fomos às suas origens neste desporto e demos voz a um piloto que brilha a nível mundial e por direito próprio merece ser reconhecido pelos seus feitos, tal como os seus compatriotas do automobilismo real. Aqui vos deixamos a entrevista que com ele efetuámos.

OWTV: O que é o McLaren Shadow Project?

Nuno Pinto : Trata-se de uma competição feita pela McLaren, para encontrar o piloto ideal para a sua equipa de esports. Isso não quer dizer que o piloto que eventualmente venha a ganhar não tenha outras funções dentro da McLaren. Mas, o principal objetivo é encontrar o piloto de esports da McLaren. Isto durante um ano.

Vais estar uma semana em Inglaterra e sei que, em linha gerais, não podes entrar em detalhes. Dentro do que podes falar, o que se faz em uma semana num evento como este?

N. P. : Testes físicos, testes psicológicos, testes no simulador, corridas no simulador, entrevistas, basicamente é isso. No fim de tudo, um piloto será escolhido.

Para além de passares muitas horas no simulador, que é que fazes na vida?

Nuno Pinto: Trabalhei alguns anos numa loja de informática, mas entretanto a loja fechou. Atualmente estou a tirar um curso de engenharia informática.

Há quanto tempo estás envolvido com os simuladores? O que te despertou o interesse por esse digamos que, tipo de atividade?

N. P. : Sensivelmente desde 2007, quando comecei na altura no rFactor. O que me interessou foi aquele primeiro impacto, pois os jogos que conhecia antes eram ‘Need For Seped’ e outros, nos quais acaba por não se sentir o comportamento credível de um carro. No rFactor pude sentir as sensações mais próximas do que um carro realmente faz – as forças, o ‘wheel spin’ (bloquear das rodas), etc – o que me motivou a empenhar para descobrir mais o que era ‘este mundo’. Simplesmente isso.

Desde essa altura até aos dias de hoje – se é que isso se pode analisar – o que mudou, ou se preferires, o que é que evoluiu?

N. P. : Eu comecei a correr online no rFactor, altura em que comprei um volante Logitech G25. Fui fazendo uns campeonatos, umas vezes ganhava e outras não. Com o tempo comecei a perceber que, para ser competitivo, só na comunidade portuguesa ou generalizando, era necessário que percebesse de ‘setups’, sem o qual é muito difícil evoluir. Após começar a interessar-me por setups, comecei a optar mais pelos campeonatos de fórmulas, pois esse tipo de carros requer muito mais afinação que quaisquer outros. A mínima alteração que faças na afinação de um fórmula altera-te o carro completamente. O campeonato virtual de F1 foi um passo determinante em frente que dei na simulação, seguindo sempre cada vez mais focado. O passo seguinte veio com a chegada do rFactor 2, que é na minha opinião muito superior ao rFactor, o que veio dinamizar de forma revolucionária a simulação, sobretudo na competição virtual. Pessoalmente, acho que o grande passo global na simulação chama-se rFactor 2.

Quais são as diferenças que tu notas entre o rFactor 2 e os outros grandes simuladores (Assetto, iRacing, AMS, RaceRoom)? Que diferenças aliás, notas entre eles?

N. P. : Sobre o RaceRoom não tenho uma opinião formada pois não conheço. Os outros conheço bem, especialmente o rFactor 2 e o iRacing. Entre eles para mim a grande diferença é o modelo de pneu (rFactor 2), que é muito superior ao do iRacing, pois esse não tem por exemplo ‘flat spots’ nem degradação térmica. Mesmo a própria física dos carros, o passar sobre os ‘bumps’ (irregularidades da pista), na minha opinião, é muito próxima do real no rFactor 2. Os simuladores Assetto Corsa e Assetto Corsa Competizione, para mim são aquele tipo de proposta que estão num meio termo entre o divertimento e a realidade, ou seja, são divertidos sem serme incrivelmente realistas. O AMS (Automobilista) para mim é um rFactor 1.5, ou seja, não é nem o 1 nem o 2. Para mim, acaba por não fazer sentido ‘perder tempo’ num simulador quando já há uma proposta daquele tipo, que é bem mais evoluída. O simulador não é mau, é divertido, também se sente tudo nos carros, mas na comparação com o rFactor 2… obviamente rFactor 2.

E os outros simuladores/jogos? Falo nomeadamente das propostas da Codemasters (Dirt, saga F1), Gran Turismo, Forza, etc. O que pensas deles?

N. P. : Para ser simulador, na minha opinião, tal como a palavra, tem que simular o máximo possível o comportamento real de um carro. Quando a filosofia na produção de um conteúdo deste tipo privilegia o divertimento e não o realismo físico, temos que o considerar um jogo e não um simulador, na minha opinião. Mesmo se tudo aquilo tem uma aparência de notável realismo, se o objetivo não é rigorosamente simular mas apenas ter conteúdo comercial, estamos a falar de um jogo de vídeo e não de um simulador.

Alguma vez testaste algum carro de competição? Esta pergunta é só para nos situarmos que ao dar opinião sobre o que achas ser o comportamento real de um carro de competição, tens algum tipo de base para o fazer.

N. P. : Carro de competição em pista não. Já andei em vários, mas nunca ao volante. Já guiei muitas vezes karts de competição, mas carros de corrida propriamente ditos nunca. Mas, acho que a guiar carros como os últimos GT3 da Studio 397 para o simulador rFactor 2 dá para ter uma ideia muito próxima do que os carros são na realidade. Claro que ao pormenor, só quem guiou os carros também na realidade pode dar uma opinião mais concreta. Mas conheço o suficiente para poder afirmar com certeza que, por um exemplo um Porsche (que tem motor atrás), não pode ter o comportamento de um carro de tração dianteira. Todos os carros têm características diferentes, que assim sendo no real, têm que ser idênticos no virtual, senão a simulação não é credível. As características de um carro de tração atrás no simulador têm que ser coerentes com as do carro na realidade. Isso é óbvio e isso dá para sentir perfeitamente no simulador rFactor 2. Mas estas sensações também se conseguem obter noutros simuladores. Apenas, para mim, é no rfactor 2 que elas são mais evidentes e transmitem maior realismo. E todas essas sensações são fundamentadas também noutras características que, nalguns casos, apenas o rFactor 2 tem, como o clima dinâmico, o ‘emborrachamento’ da pista, a degradação das condições de aderência da pista, a temperatura da pista, só para dar alguns exemplos.

Nuno, tu na simulação competes. Como achas que está atualmente o nível geral nas competições virtuais, tanto a nível de pilotos e equipas, como na capacidade dos organizadores?

N. P. : Falando por exemplo de competição no simulador rFactor 2, os expoentes máximos são o VEC (Virtual Endurance Championship) e as competições Formula SimRacing (FSR). No VEC o nível é elevado, em três ou quatro classes diferentes, tens sempre três ou quatro equipas capazes de lutar pelas vitórias. Nesse campeonato, atualmente os melhores pilotos estão na categoria mais potente, os LMP2. Como em todos os campeonatos, em qualquer simulador, há depois condicionantes que mesmo os bons podem não ganhar, pois há os toques, a internet, enfim, tal como no real podem haver fatores externos que influenciam. Mas, acho que atualmente o nível de pilotos e organizadores vem vindo a melhorar. Acho por exemplo que com a chegada das categorias de ‘endurance’ à simulação, houve uma evolução geral nos pilotos, pois é necessário equilibrar a afinação dos carros para que sirva a vários tipos de condução. Isso na minha opinião fez evoluir pilotos e equipas. Mas, ainda estamos numa fase embrionária da competição virtual, pelo que entre pilotos, equipas e organizações, há sempre ainda muita margem de progressão.

Muitas vezes, nas competições virtuais, ainda notamos alguma falta de consistência no compromisso de participar. Os pilotos às vezes quando começa a correr mal, não levam as competições até ao fim. Isso no real normalmente não acontece. Como resolverias isso?

N. P. : Por exemplo, começando a cobrar nas inscrições para campeonatos e valores que se vejam, para que haja compromisso de querer participar e levar até ao fim. Acho que para que haja pilotos virtuais a correr, há sempre um trabalho de organização poucas vezes quantificado e valorizado por quem participa. Os organizadores investem tempo e dinheiro para proporcionar as condições para que se possa correr. Poucas vezes se leva isso em consideração. Por isso, acho que as organizações deviam cobrar, dessa forma valorizando as suas competições e criando as condições para que exista um sério e efetivo compromisso de quem vem correr.

Estás inserido numa equipa portuguesa, inclusivamente no VEC, em que competes pela Ramada Motorsport. Numa altura em que há equipas virtuais como uma filosofia muito profissional, a tua é uma delas, o que pesou na tua escolha?

N. P. : Foi na realidade muito simples. O Pedro Ramada, dono da equipa, fez-me o convite e eu queria entrar nas competições de endurance e aceitei. Começámos a desenvolver uma amizade e isso tem sido bom, pois sinto-me bem na equipa.

O ‘endurance’ é uma solução de futuro viável, no mundo dos simuladores?

N. P. : Sem dúvida. É uma área da competição em simulação que requer muitíssimo treino, mesmo antes de começar uma corrida. É preciso trabalhar muito para encontrar afinações que garantam velocidade e consistência (regularidade) ao carro, mas também treinar para gerir os vários níveis de andamento entre as várias classes em pista, para nos adaptarmos às ultrapassagens, nomeadamente. No ‘endurance’ é fundamental gerir essa diferença de andamentos, algo que aliás também se vê da mesma forma no real. No virtual, é mesmo muito importante estar em servidor com muitos pilotos a treinar, para o mais depressa possível assimilar todas estas ‘rotinas’.

Na tua opinião, para quem chega à simulação e quer competir, qual a opção mais fácil?

N. P. : Sem dúvida, os carros de tração dianteira e com pouca potência. São os que mais facilmente nos ajudam a ganhar ritmo e ao mesmo tempo aqueles em que há mais contatos em corrida, que é algo ao qual também nos precisamos de adaptar depressa. Começar pelos tração dianteira com pouca potência e ir subindo para carros mais potentes, de tração dianteira. A partir daí, é escolher (risos).

Inicialmente a simulação era algo que os pilotos reais não valorizavam e aqueles que ‘andavam’ nos simuladores, quase que o faziam ‘off the record’. Com a evolução da simulação, esse fenómeno tem vindo a alterar-se. Nomes como Rubens Barrichello, José Maria Lopez, entre outros, trouxeram outro ‘crédito’ à simulação’.  Atualmente, os maiores nomes do automobilismo mundial, mesmo da F1, são presenças regulares na simulação. O iRacing neste capítulo é um verdadeiro caso de sucesso, com os pilotos da NASCAR entre muitos outros a servirem-se do simulador para treinar e correr. Já estamos atualmente noutra fase, em que também as marcas olham com atenção para o virtual, em várias plataformas de simulação. Qual é a tua opinião sobre o tema?

N. P. : As marcas estão-se a começar a aperceber que a simulação não é um jogo e que nela há gente muito empenhada e com muito talento. Acho que essa é outra grande vantagem dos simuladores.

Vês no futuro ‘abrirem-se as portas’ da FIA e das marcas para que haja mais campeonatos chancelados, a nível nacional e internacional nos simuladores, tais como por exemplo a F1 Esports (F1 2018) ou o FIA WTCR virtual (RaceRoom)?

N. P. : Acho que sim e na minha opinião faz todo o sentido. Com as tecnologias e nós cada vez mais ligados à tecnologia, acho que faz todo o sentido assumir o potencial do virtual. Acho que inclusive em Portugal, nomeadamente no panorama atual da velocidade (real) em Portugal, seria uma excelente ideia tirar mais partido do virtual a nível de competições oficiais, até mesmo para posteriormente dinamizar através dessa ‘ferramenta’ o automobilismo de pista real. Com as limitações económicas no nosso país para a prática do automobilismo, havia muito a ganhar com a aposta no virtual. Até porque os pilotos reais podem vir competir nos simuladores, com os pilotos virtuais. A longo prazo, acho que esta seria uma opção lógica e inteligente.

Texto: ©Jorge Cabrita
Fotos: ©OnWheelsTV e gentilmente cedidas por Nuno Pinto